sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Liberdade é atitude



Terminei de ler a interessantíssima biografia filosófica e pessoal de Martin Heidegger, um pensador alemão do século XX que escreveu um livro pedreira intitulado "Ser e Tempo". Rüdiger Safransky é um biógrafo como poucos. Ele não é positivista em suas descrições e, desta forma, não elabora uma narrativa linear, do tipo cronológica. Ele parte dos estudos de Heidegger e das possíveis interações das reflexões desse "mestre da Alemanha" com sua vida pessoal. Em particular, o que me interessa escrever agora em meu blog, é a questão da liberdade individual e da escolha. Heidegger, a partir de 1933, torna-se nacional-socialista, isto é, membro filiado do partido nazista na Alemanha de Adolf Hitler. É nomeado reitor de uma renomada universidade alemã e assume uma postura e orienta suas ações de modo a aceitar o projeto histórico do nacional-socialismo encarnado na pessoa do "führer". Sofreu inúmeras críticas no pós-guerra por essa escolha, especialmente de sua mais famosa aluna, a grande pensadora Hannah Arendt. Tenho a impressão de que no livro "Origens do Totalitarismo" ela escreve sobre a ascensão do nazismo na Alemanha nos anos 20 e 30 pensando em Heidegger. Pois bem, a escolha dele é mera desculpa para escrever o que me proponho. Heidegger fala muito no "estar no mundo", no "estar presente", na vivência do "ser" no tempo e na própria história. E, pelo que entendi, o "ser" precisa existir de uma única forma, que é a ação. Aqui, a ação é contrária à contemplação. Apesar de recorrer muito à Platão, Heidegger não defende uma filosofia contemplativa, mas uma filosofia ativa. Há, sem dúvida, pontos de concordância com o velho mestre grego, pois Platão correu risco de vida quando viajou para Siracusa, na Sicília, para transformar um rei despótico em um rei filósofo. Platão não foi tão contemplativo assim. Pois bem, desta forma, "estar no mundo" é agir. E agir significa vivenciar na sua integralidade a liberdade, portanto, as escolhas que somos sempre instigados a fazer. O homem é a escolha que ele faz para si próprio e para os outros, e que também tem repercussões em relação aos outros. A inação é a negação do "estar no mundo". A inação, que sugere a contemplação, é a negação do próprio existir. Heidegger escolheu o nacional-socialismo e mudou, em diversos momentos, seu discurso. Porém, após a guerra e instigado pelas críticas que fizeram a ele, ele respondeu que naquele momento, em uma Alemanha vivendo uma depressão econômica, resultado da crise de 1929, com sete milhões de desempregados, mais as suas famílias, sem perspectiva, sendo obrigada a pagar vultuosas somas em moeda com indenização de guerra, porque tinha perdido e culpabilizada pela Primeira Guerra Mundial segundo o Tratado de Versalhes, porque perdeu territórios, porque a auto-estima do povo alemão estava a mais baixa possível, entre outras razões, e porque Hitler personificava, naquele momento, a possibilidade de uma revolução na Alemanha, a construção, que hoje sabemos ser estética, de uma Alemanha "nova", engajou-se na vida pública e política com coragem e determinação. Em carta a um ex-aluno depois da Segunda Guerra Mundial, ele disse que ações exultantes como a dele também foram compartilhadas por homens como Hegel e Hölderling, que viam em Napoleão Bonaparte o triunfo da "razão" iluminista e dos princípios de liberdade e igualdade entre os povos e nações. Pois bem, Heidegger escolheu mal segundo os olhos do presente, mas naquele momento histórico, Heidegger fez a sua "melhor escolha", pois não há nada fora de nós que legitime dizer que a escolha de qualquer pessoa tenha sido "certa" ou "errada". E é desta forma que penso e sinto Heidegger com misericórdia, no sentido de Sponville, reconhecendo a verdade histórica, as escolhas do "mestre da Alemanha" mas não o odiando e, desta forma, abrindo espaço para o amor, no sentido de "agapé", ou seja, o amor universal, que me permite hoje ler seus livros e artigos com generosidade, aprendendo com esse grande filósofo o "mergulho que fazemos na vida", o próprio "dasein", e utilizar minhas reflexões, a partir de sua obra e de sua biografia para a minha própria vida, para minhas escolhas e, consequentemente, para o exercício da minha liberdade. Amanhã será dia 12 de Dezembro e fiz minha escolha, livremente, responsavelmente. Agi no mundo de acordo com o que considero minha "melhor escolha" em face das premissas subjetivas e objetivas que hoje tenho em mãos e que, com certo grau de imprecisão, minha razão e meus sentimentos podem avaliar. É tudo na vida uma questão de se compreender o "ser" no "tempo", o "ser" que somos, momentaneamente, e o "tempo" presente, que temos, também momentaneamente. Saudações heideggerianas para todos...

sábado, 14 de novembro de 2009

A partida


Um dia, um pai deu a seu pequeno filho uma pedra grande, áspera e porosa. O filho retribuiu o presente do pai dando a ele uma pedra pequena, branca e lisa. Estavam os dois à beira de um rio. O pai disse ao filho que em tempos ancestrais, quando ainda não se usavam as palavras, as pessoas trocavam entre si pedras carta. A pedra lisa significava um coração sereno e pacífico. Já a pedra áspera era a representação de um coração atormentado, de alguém que sofria muito. Alguns dias depois o pai foi embora, deixando o filho com a mãe, ainda pequeno. Nunca mais se viram. O filho cresceu. Tornou-se um violonista. Tocava em uma orquestra. Mas a orquestra foi desfeita e ele teve que retornar com sua nova esposa para a casa materna, no interior. A sua mãe já tinha falecido. Desempregado, iniciou um trabalho como preparador de corpos mortos. Aprendeu o que muitos de nós não entendemos. A naturalidade da morte e a dignidade daqueles que aqui viveram e que tiveram, como todos nós teremos um dia, que partir. Certo dia sua esposa recebe um telegrama. Dizia que seu pai tinha morrido. O filho relutou. Guardava uma grande mágoa pelo fato do pai tê-lo abandonado. Mesmo assim, acabou cedendo e foi ver o pai morto. Em princípio não o reconheceu. Já tinham se passado mais de trinta anos. Chegaram os homens da funerária. Queriam logo colocar o corpo do velho homem no caixão. De repente, o filho os afastou do corpo de seu pai e iniciou o seu trabalho de preparação. Fez a barba daquele velho homem. Quando foi afastar os dedos das mãos para posicioná-las corretamente para o cortejo fúnebre, percebeu que por entre os dedos caiu a pedra lisa que o filho tinha dado a ele há tantos anos. Nesse momento ele olhou detidamente para o rosto de seu pai e o reconheceu. Chorou lágrimas de tristeza pelos anos que não tiveram juntos, mas de alegria pelo reencontro. Enfim seu coração foi pacificado. Sua esposa deu a ele a antiga pedra e ele a devolveu à sua mulher que agora carrega em seu ventre o filho que irá nascer.
Para nós ocidentais a morte já teve os seus momentos de dignificação. A morte era um ritual cultuado. A memória dos mortos trazia em si a lembrança e o sentimento de pertencimento a uma família que possui uma história sempre significativa. Também se tinha um sentimento de magia em relação ao sobrenatural. Uma crença no divino e na certeza de que os mortos zelariam pelos vivos. Hoje a morte se tornou uma técnica médica. Os hospitais, com seus modernos aparelhos, procuram ignorar aquilo que é a única certeza de que temos na vida. Queremos todos viver eternamente. Queremos todos sermos jovens e alegres. Não há tolerância para a tristeza e nem para os pensamentos e os sentimentos. A morte tornou-se um incômodo para todos. Descartamos os mortos, assim como descartamos os velhos, como se descarta uma mercadoria que já não nos é mais útil. Porém, a partida está potencialmente presente dentro de todos nós e não podemos controlar seu inevitável momento. A lembrança do filho em relação ao pai resgatou não somente a família e o culto aos ancestrais, mas principalmente o amor retido por tantos anos dentro do seu coração e também no coração daquele homem tumultuado que teve as suas razões para a separação. Muitos de nós estamos separados fisicamente daqueles que amamos tanto, por motivo de distância, de trabalho, de falta de tempo entre outros. Mas guardamos dentro de nossos corações as pedrinhas que todos nos daram um dia, deixando conosco o sentimento da presença na lembrança como um sinal de que devemos dizer um sim à vida reconhecendo que a morte nos aguarda e, ao mesmo tempo, abre a porta para que novas vidas ocupem o nosso lugar...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Liberdade, responsabilidade e angústia














Que belo acaso é o ser humano. Em um planeta tão pequeno em comparação às grandes constelações do universo, surgimos e passamos a viver em companhia de tantos outros seres vivos. Compartilhamos com eles uma mesma natureza. Temos nossas determinações, essencialmente orgânicas. Mas nesses milhares de anos em que nos fazemos presentes, criamos a cultura. A cultura é a nossa segunda natureza. Desenvolvemos a linguagem e passamos a nos comunicar, compartilhando os mesmos signos, sinais e símbolos. Porém estamos sós. Não somente sós porque não compartilhamos a linguagem com os outros seres vivos, mas sós enquanto indivíduos. Vivemos em sociedade sim. Posso até ceder ao grande Aristóteles a idéia do "zoon policon". Tudo bem, o homem é um ser social. Mas temos a nossa subjetividade. E ela é praticamente inacessível, inclusive para nós mesmos. Não sabemos, individualmente, quem somos. Vivemos uma liberdade que nos permite escolher as ações. Porém essa liberdade tem um limite, estabelecido pelo contexto histórico e social e também pelo sentido que atribuímos ao mundo e às outras pessoas. Minhas escolhas são resultado do sentido que eu atribuo às coisas. Minha consciência é limitada e, segundo Sartre, minha existência precede a minha essência. Não nascemos prontos e acabados. Nascemos animais e, por meio do processo de socialização passamos a aprender maneiras de pensar, agir e sentir. Mas somos indivíduos e, mesmo que compartilhemos a mesma cultura, filtramos em nossa consciência seus pressupostos e fazemos escolhas. O que será que legitima minhas escolhas? Se eu fosse cristão, no sentido histórico e tradicional, diria que são os mandamentos divinos. Há uma facilidade nisso, pois "a priori" Deus teria revelado para nós a forma correta de agirmos no mundo. Mas e se não existe Deus? A aposta pascalina não vale nesse caso. Blaise Pascal disse que é preferível acreditar em Deus porque se ele não existir não fará diferença alguma, mas se ele existir estaremos salvos! Um argumento ateu, ou quem sabe até agnóstico, me permitiria, como queria Sartre, reconhecer que não há nada exterior a mim mesmo que valide as minhas escolhas. Portanto, nunca saberei se estou realizando a escolha certa ou melhor. Acontece que sempre procuramos escolher o melhor. E essa escolha tem a ver com a idade em que me encontro. Aos dezessete anos escolhi ser professor. Naquele momento era o melhor para mim. Hoje, passados tantos anos, ainda reconheço que foi o melhor. Saboreio os frutos de minha profissão, especialmente o contato maravilhoso que tenho com meus alunos que, pacientemente, ouvem-me dissertar sobre tantos assuntos diversos em minhas aulas. Mas também fiz que hoje me arrependo. Mas é bobagem o arrependimento, porque aos vinte anos eu era uma outra pessoa e, dessa forma, só poderia considerar o melhor aquilo que escolhi na época. E hoje? Também sou alguém que faz escolhas, e pretendo sempre fazer as melhores, mas pode ser que daqui a vinte anos eu reconheça que não foram as melhores. E daí? Simplesmente gratidão em relação ao passado. Mas sou capaz de olhar os olhos daqueles que me circundam, que me amam ou me odeiam, e os piores, os indiferentes. O olhar deles é que irá dizer-me se foi o melhor que eu escolhi. Sartre disse que o inferno são os outros, porque eles sempre colocam obstáculos em nossas escolhas, mas dependemos deles para percebermos se elas foram as melhores possível. Os outros são o meu espelho! Posso amá-los? Claro que sim. Mas amar não significa que os afagarei com carinhos, mas que os deixarei fazerem as suas próprias escolhas, respeitando a subjetividade de cada um. E assim vamos, como o pássaro plainando no céu, solitários, buscando um refúgio para o descanso ou a imensidão para bater as asas. E o que isso tem a ver com a responsabilidade? Toda escolha que faço resulta em uma ação ou uma inação. Isso impactua toda a humanidade e, em função disso, sou responsável. Procurarei sempre fazer escolhas que minimizem o sofrimento alheio e maximizem a felicidade do próximo, por mais distante que esteja. A minha única angústia é não saber se a escolha foi realmente a melhor. Porém, ainda tenho o olhar alheio para mirar. Espero que os olhares sejam sempre brilhantes de alegria na afirmação da vida.

sábado, 7 de novembro de 2009

O eterno retorno




Neste segundo semestre de 2009 procurei fazer uma leitura de alguns filósofos ateus que me possibilitassem uma reabilitação do cristianismo. Pode parecer paradoxal, mas o fato é que me empenhei nesse processo. Com Schopenhauer descobri que a vida é dor e sofrimento e também o tédio. A solução dele é o isolamento, o ascetismo, um ser antisocial, e isso não me interessa de forma alguma. Eu acho que ele tem razão quando diz que a maioria dos seres humanos são néscios, medíocres e, por não terem idéias para dialogar, no sentido socrático, jogam e trocam cartas. Porém, eu não concebo a minha vida como isolamento. Gosto das pessoas. Tenho minhas manias. Atiro garrafas no palco quando vou ouvir rock e os músicos da banda resolvem "azarar" umas meninas idiotas e mandam um "breganejo". Mas, na maioria das vezes sou bastante tolerante. Não me afino com a negação do mundo. Na verdade, eu quero o mundo. Eu quero as pessoas. Gosto do Sartre quando diz que, apesar do inferno serem os outros, são exatamente os outros que me propiciam a possibilidade de captar, mesmo que por uns meros instantes, minha essência. Lembrem-se de que, para ele, a existência precede a essência. Então, Schopenhauer me foi útil para confirmar que a vida é dor e tédio. Mas aí eu parto para o Nietzsche e descubro, preliminarmente, que somos uma jóia preciosa nos confins do universo. Fruto do acaso, somos seres pensantes que buscam construir um sentido para si mesmos, mesmo que esse sentido careça de qualquer legitimidade. Nietzsche diz, categoricamente, torna-te quem tu és! E me proponho a isso mesmo. Em "A gaia ciência", esse elegante e, ao mesmo tempo, desajustado alemão, afirma que devemos amar, incondicionalmente, a vida, em tudo aquilo que ela nos oferece, tanto coisas boas como más. É o "amor fati". Com a idéia do "eterno retorno", ele me mostra que viver o presente, sem se preocupar com o passado e com o futuro, é a única razão para se viver. Viver o presente como se ele fosse eterno e retornasse pela eternidade para nós mesmos. Uma afirmação dionisíaca da vida, com um toque de equilíbrio e harmonia, portanto beleza, do deus Apolo. Nietzsche me inspira a aceitar a mim mesmo e a todos os demais seres humanos. Cristo, segundo os evangelhos, afirmou certa vez que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Eu entendo que essa afirmação quer significar que se eu não me amar intensamente primeiro, não poderei amar qualquer outra pessoa e que, amar a si mesmo, é permitir-se uma ética do querer, sem correr o risco de uma prática que não leve em consideração a moralidade, apesar dele entender a moralidade como a ética "cristã" do século XIX luterano alemão. Para mim, Nietzsche apregoa uma moralidade de afirmação da vida e não de negação. Se não fosse assim, porque Zaratustra teria descido a montanha para falar aos ressentidos. A moral dos escravos não os impede de almejarem e alcançarem a moral dos senhores, enquanto glória, honra, coragem e destemor. Cristo, diante dos vendilhões do templo, chutou literalmente as pessoas. O sentido do oferece a outra face deve ser repensado, porque a instituição religiosa cristão, seja católica ou protestante, tratou de interpretar e reinterpretar o que Cristo falou segundo os interesses do clero que, por ser institucionalizado, não tem nada de espiritual, mas radicalmente de mundano. De fato, o que me interessa é a possibilidade de me relacionar com os seres humanos e vê-los como espelho que me dirão, de uma forma ou de outra, por meio de olhares ou palavras, que estou agindo certo. É por isso que me empenhei em ler Sartre, especialmente o "O existencialismo é um humanismo". Lá, naquele texto, Jean-Paul deixa claro que é o outro que me permite a compreensão de minha essência, na medida em que sou um ser histórico e social e me contruo por meio de minhas ações. Todas as minhas ações são pautadas no princípio da liberdade, que é a condenação do humano. Todos estamos condenados à liberdade. E isto, para mim, significa que não há nada exterior a mim mesmo que legitime as minhas escolhas. Devo pautar minhas escolhas no único valor moral que realmente existe, que é a vida. Portanto, Sartre me pacifica com a humanidade, por mais medíocre que possa se manifestar enquanto fenômeno, porque ela é que me proporciona a oportunidade de me ver, mesmo que por um relance, como alguém inteiro. No meio do caminho li Kafka e seu conto "A metamorfose". Gregor se transformou ou foi transformado em um inseto? Essa questão é intrigante para mim, porque entendo que o protagonista do conto não somente se transformou, como quis essa transformação, agindo com um conformismo que me remete a moral do rebanho citada por Nietzsche. O que eu quero fazer de minha vida? Essa questão deve pautar a consciência de todos os seres humanos porque, do contrário, todos nos tornaremos insetos. Não quero ser um inseto, quero ser um humano. Aí vem Sartre e, com ele, a dimensão da coletividade. Cristo certa vez disse que aquele que quiser me seguir deve abandonar pai e mãe. Sartre, em sua biografia, deixa claro suas opções no tocante à família. Nada deve se interpor entre a ética do querer e sua realização. Veja só Gregor, o protagonista kafkiano. Ele nega a sua vida em prol de uma família que, no final das contas, é responsável pela sua morte. Que venha a família com todas as suas alegrias, mas nada de se deixar usar por aqueles que só têm com vc laços genéticos. Meus verdadeiros amigos são aqueles que se importam comigo. Caminhando para o final, releio Camus e o mito de Sísifo. Vou ao fundo do fundo do absurdo da existência humana. Mas sei que ainda é possível dar um sentido à vida, mesmo que ela própria não tenha nenhum sentido. Então me socorro com Sponville e sua felicidade desesperadamente. A idéia de Sponville é muito tocante e radical. Não devo idealizar a realidade. Ela é o que é e pronto. Com relação ao passado, sou grato por tê-lo vivido como uma eternidade e ter tido com ele um grande aprendizado. Com relação àqueles que me odeiam, simplesmente misericórdia, pois nada mais posso fazer a respeito. Em relação ao futuro, o desespero, a ausência de esperança, porque o futuro não me diz respeito e não quero viver minha vida de expectativas. Quero viver minha vida de experiência concretas. Quero dizer sim ao mundo. Quero a salvação! O paraíso está em Cristo, não como Deus, porque não o é. Aliás, como ele poderia ter convencido aquele bando de ignorantes se não tivesse se intitulado Deus? Vejo as parábolas como alegorias de uma realidade de vida, do agora e do presente. Deixo de lado as metáforas de um além túmulo para abraçar o presente em toda a sua intensidade. Ressucitar Lázaro é uma metáfora de ressucitar a si mesmo. Uma leitura cheia de contradições e de interrogações, mas me permito fazê-la não somente em função de meu liberalismo, pois não somente posso como quero pensar o que quiser, mas principalmente porque o dizer de Paulo de Tarso sobre se eu ainda falasse a lingua dos homens, ou se eu falasse a lingua dos anjos, sem amor eu nada seria. Quero amar minha vida e a vida dos outros, sem justificação. Apenas o desejo do amor nutre minha existência e é sua proximidade com minha vida que me movimenta para frente, para a direção do Paraíso aqui nesse planetinha esquecido no último rincão do universo. Quero ser como o saveiro que sai para o mar sem pressa, saboreia as suas águas e brisa e, ao final da tarde retorna para a praia, carregado ou não de peixes, pois isso pouco importa, mas que está disposto, no dia seguinte, a se aventurar novamente por entre as ondas e o verdume, como uma estrela solitária no céu negro, capaz de tingir de coragem e bravura pela vida o coração dos homens. E como diz o sambista: fim de papo!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sobre a tortura, a anistia e a banalidade do mal














Faz trinta anos que o regime militar, instalado no Brasil em 1964, aprovou a lei da anistia, que concedia a libertação e o perdão aos militantes políticos que lutaram contra a repressão, mas também permitiu que os agentes estatais, policiais e militares especialmente, não sofressem qualquer tipo de julgamento e punição por terem torturado milhares de pessoas nos porões sombrios de organizações como o DOI-CODI e o DOPS.
Em 2004 o PNUD publicou um documento, resultado de uma extensa pesquisa, sobre a democracia na América Latina. Um dado que me surpreendeu foi que mais de 60% dos latino-americanos abririam mão do Estado Democrático de Direito e aceitariam um regime ditadorial se este oferecesse emprego e renda.
Posso até pensar que parte do raciocínio esteja relacionada com a situação de miséria e desigualdade social que reina na América Latina. Porém, não posso concordar com essa posição por dois motivos: a democracia possui mecanismos institucionais, políticos e legais que permitem o avanço no processo de distribuição de renda e um regime ditatorial contraria todos os princípios dos direitos humanos.
Acredito mais naquilo que Brecht denominou de "analfabetismo político". A memória histórica latino-americana e, em especial, a brasileira, está em frangalhos. Os jovens não têm a mínima noção do que aconteceu nesse país durante o regime militar. A escola não consegue informar e sensibilizar minimamente os estudantes sobre o tema. O Estado, em seus diversos níveis, não promove a construção de memoriais com a finalidade de gravar com a arquitetura e a arte a violência selvagem que assolou o país durante aqueles anos da ditadura militar. Milhares de famílias foram desestruturadas e ficaram desamparadas quando um de seus membros foi torturado e morto pelas forças da repressão.
Em 1979 veio a lei da anistia. Havia uma pressão da sociedade civil e também internacional para que ela fosse aprovada. Porém, uma questão estava em jogo. Fundamentalmente o que iria acontecer quando o país voltasse à normalidade democrática com aqueles que, na função de servidores públicos, utilizaram meios medievais para a realização do inquérito de prisioneiros políticos? Provavelmente seriam presos, julgados e condenados pelo crime de tortura, para não dizer o de homicídio qualificado, em tribunais democráticos.
Então era mais inteligente anistiar todos, presos políticos, exilados, torturadores etc. Para ser mais preciso, a lei da anistia ainda sofreu algumas reformas, porque alguns presos, especialmente aqueles que cometeram homicídios, sequestros e assaltos continuaram presos por mais algum tempo.
Da noite para o dia, aquele homem ou mulher que, impunemente e sem qualquer restrição legal ou administrativa, colocavam um jovem nu sentado em uma cadeira e lhe davam choques elétricos, ou então uma jovem, nua, deitada em uma cama e a estupravam barbaramente, passariam a ser considerados pela Justiça e pela lei cidadãos normais, acima de qualquer suspeita.
Veio a redemocratização em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, a Constituinte em 1986, a própria Constituição em 1988. Tivemos novamente eleições diretas em 1989. Em 1994, um intelectual que foi cassado e perseguido durante a ditadura militar, o Fernando Henrique Cardoso, foi eleito presidente e, agora, um ex-metalúrgico, que foi militante sindical durante o período de repressão e diversas vezes presos, é o presidente da República. Porém, o que foi feito de significativo a respeito dos torturadores?
Muitos documentos foram levados nos anos 80 para a guarda da polícia federal, chefiada na época pelo Romeu Tuma. Quando voltaram aos estados tinham sido saqueados, sendo que uma parte significativa das informações sobre os torturadores desapareceram e não estão disponíveis aos pesquisadores.
Os parentes das vítimas de homicídio e as vítimas sobreviventes passaram a ter o direito de exigir do Estado brasileiro o reconhecimento da prática de tortura e, desta forma, o direito de uma indenização financeira. Essa indenização não apaga o passado e muito menos o sofrimento dessas pessoas. Mas é uma forma do Estado minimizar o dano causado a elas. Porém, mesmo assim, o critério para avaliar o valor a ser indenizado é desigual e, a maioria, recebe uma quantia irrisória em relação ao que sofreu no passado.
Mas a questão que quero abordar mais especificamente é a figura humana do torturador.
Hannah Arendt escreveu um livro intitulado "Eichmann em Jerusalém". Eichmann era um oficial da SS nazista durante a guerra e o responsável pela logística em um campo de concentração para encaminha milhares de prisioneiros judeus para a câmara de gás.
Terminada a guerra, ele fugiu da Alemanha e se escondeu na Argentina. Em 1960 o serviço secreto israelense o encontrou e o levou para Jerusalém, onde foi julgado e condenado à morte.
Diante da pergunta do juíz se ele se considerava culpado ou inocente, não teve dúvida em responder que era inocente.
O juíz ficou pasmo e perguntou por qual motivo. Ele respondeu que era um oficial da SS recebendo ordens superiores. Servia ao Estado nazista alemão que possuia leis que o autorizavam a fazer o que vinha fazendo. No caso de desobedecer às ordens poderia ser punido severamente. Era, portanto, um burocrata a serviço do genocídio.
Hannah Arendt chamou a esse tipo de mentalidade de "banalidade do mal". A tecnocracia da morte e do terror passou a imperar no mundo da modernidade científica e tecnológica.
A questão que faço é a seguinte: onde reside o humano dentro desse burocrata do mal?
Não há o humano no sentido gnóstico. O que há é uma engrenagem da qual ninguém pode escapar porque não possui o menor senso de reflexão crítica e valores da dignidade humana. Associa-se essa alienação ao prazer macabro e sádico de ter um poder desse tipo nas mãos e temos uma das maiores tragédias da história.
E no Brasil, durante a ditadura militar, ocorreu a "banalidade do mal"?
A legislação brasileira nunca permitiu a tortura. O Brasil, desde o começo do século XX é signatário de diversos tratados e convenções internacionais que considera a tortura como um crime contra a humanidade. O documento mais importante assinado pelos representantes do governo brasileiro é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas em 1948.
Desta forma, os torturados dos porões da ditadura militar não estavam seguindo a lei quando torturavam os presos políticos. Seus superiores não ordenavam expressamente a prática de tal ação violenta e covarde. Mas faziam assim mesmo. E depois, no final do expediente, voltavam para seus lares, suas famílias, brincavam com seus filhos, assistiam a uma novela na televisão e iam dormir em paz.
Então porque torturavam pessoas indefesas?
Essa é a questão que está por detrás de tudo o que eu escrevi até agora e que me intriga.
Do ponto de vista histórico, a polícia e as forças armadas no Brasil, sempre gozaram de impunidade e de um poder monstruoso contra a sociedade. Era de se esperar que, em face da negligência das autoridades superiores, os torturadores utilizaram os meios que podiam tendo a certeza de que não sofreriam qualquer tipo de censura. Aliás, mesmo após a redemocratização e ainda hoje, a tortura é um dos meios mais utilizados pelos policiais para investigações criminais, especialmente em relação à população pobre que não possui meios de se defender judicialmente dessa prática.
Do ponto de vista filosófico, creio que precisamos nos reportar à condição moral do ser humano. O homem é um ser racional e moral, porque possui a consciência. Esta dá a ele a liberdade no agir. Porém a liberdade acarreta a responsabilidade e, nesse ponto, ninguém era, foi ou será realmente responsabilizado. Pode-se pensar em algum tipo de remorso ou de arrependimento por parte dos torturadores que ainda estão vivos e andam livremente pelas calçadas de nossas cidades?
De uma perspectiva psicanalítica, creio que no controle da situação e de posse de um poder contra o qual a vítima não podia se defender, a sensação orgásmica que a prática da tortura permitia aos seus protagonistas sentir é motivo suficiente para entendermos sua forma desumana e cruel de tratamento aos presos políticos.
Enfim, quem é o torturador?
É todo aquele agente público que utiliza de métodos violentos físicos e morais para obter informações, relevantes ou não, dos presos políticos na prática do inquérito policial.
Mas também somos todos nós que na época sabíamos que isso ocorria no subterrâneo da sociedade brasileira e não fizemos nada e todos os que hoje sabem desse fato e se omitem por conta do individualismo proporcionado pela sociedade consumista e, finalmente, aqueles que não sabem o que ocorreu e que, diante da possibildade de saber do acontecimento, negam-se a isso em nome de seus interesses pessoais vinculados ao que poderiam chamar de um "novo" momento da história brasileira onde isso não ocorre mais.
O que fazer, portanto, com os trinta anos da anistia?
Lembrar os que se esqueceram, punir os que praticaram a tortura e ensinar os mais jovens o valor fundamental de se viver em uma sociedade democrática, mesmo tendo ainda tanto o que se fazer e sendo ela algo ainda muito limitado. Mas é o que temos e não podemos abrir mão disso. Que a justiça se faça e que a memória brasileira mantenha-se viva sobre essa mancha em nossa história para que fatos como esse não ocorram nunca mais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Roda de ratos


Ontem à noite houve um seminário sobre o livro do Immanuel Wallerstein, "Capitalismo histórico e civilização capitalista" no 3o. ano de História. O texto é primoroso, com um bom embasamento teórico e contextualiza bem a história do capitalismo desde o século XV. A certa altura da apresentação do aluno Rafael, ele faz uma citação do Wallerstein sobre o comportamento do capitalista, como um rato que fica correndo em uma roda dentro de uma gaiola e, quanto mais ele corre, mais ele quer correr, fazendo uma alusão à vontade da acumulação de capital.
Nesse momento, senti uma vontade grande de interferir na fala do aluno e fazer uma inferência por outros corredores do pensamento. Lembrei-me do livro do Marshall Berman, "Tudo o que é sólido desmancha no ar" e, em especial, o capítulo em que ele analisa o poema de Goethe, "Fausto".
O personagem Fausto faz um pacto com Mefistófeles para poder seduzir uma moça, loura, ingênua, pura e virgem, uma camponesa idealizada por Fausto como a mulher de seus sonhos. Vende a alma para o diabo. No final da história a moça é seduzida e Fausto apresenta o mundo dele para ela que, por ter um cérebro, simplesmente, se transforma e passa a desejar uma vida bem diferente da que ela tinha e que tanto seduzia Fausto. Enfim, a moça deixa de ser a mulher idealizada de Fausto e este se entedia com ela.
Ele então decide partir para aventuras mais perigosas, "baladas" mais picantes, conhecendo aquilo do mundo, ou do submundo, em que busca o prazer insaciavelmente. Quanto mais prazer ele busca, mais prazer ele quer. Não há uma quota de prazer suficiente para pacificá-lo. Até que chega um momento em que ele se entedia de tanto prazer sensual.
A partir daí, sem querer entrar nos meandros do texto, Fausto passa a desejar transformar o mundo de acordo com sua vontade. Torna-se um capitalista selvagem e decide comprar tudo, destruir o já existente e construir novas coisas. Porém, as novas coisas construídas o entediam também e, novamente, a destruição para a reconstrução. Em certo momento, há no terreno em que ele está comprando uma casa simples, onde mora um casal de anciãos. Ele tenta comprar a qualquer preço a casa deles, mas eles resistem, como se quisessem dizer que o mundo todo não pode ser comprado por um homem só e, ainda mais, resistem para lembrar a todos de um tempo passado onde a vida tinha um ritmo natural, não fatigado pelo relógio e pela lógica especulativa da acumulação do capital.
Fausto não titubeia e manda uns capatazes incendiar a casa dos anciãos e eles morrem. Enfim, Fausto é o dono de tudo. E destrói e reconstrói dentro de uma lógica em que o que se parece novo, nada de novo possui. Uma verdadeira aventura sobre a modernidade. Fausto sempre foi infeliz...
Em todos os momentos, Fausto buscou a felicidade. Mas a buscou fora de si mesmo. Tinha como premissa ter e possuir pessoas e coisas.
Nesse momento da minha reflexão, lembrei-me de Schopenhauer e de seu livro "Aforismos sobre a sabedoria da vida". No início, o filósofo alemão afirma que o homem pode ser medido a partir de três critérios.
O primeiro é o que alguém possui. Por mais que possua bens, esses bens não trarão nunca a felicidade, porque são exteriores ao indivíduo. Além do que, a lógica do consumismo impõe uma constante dor e sofrimento, na medida em que a vontade saciada com a compra de uma mercadoria impõe o tédio e, uma nova vontade impele a pessoa a comprar uma nova mercadoria e assim indefinidamente. A felicidade nunca é alcançada!
O segundo é o que os outros representam sobre nós. Schopenhauer afirma que é uma bobagem nos preocuparmos com o que os outros pensam ou falam a nosso respeito, pois o mundo é formado, na sua maior parte, por néscios e medíocres que nada têm a dizer de significativo sobre nós mesmos. É por isso que ele diz que os homens gostam de jogar cartas. Já que eles são vazios, sem conteúdo, e nada tem a trocar entre si no campo das idéias, então trocam as cartas no jogo. Uma brilhante ironia para o desperdício de tempo em banalidades!
O terceiro é o que alguém é. Em "O mundo como vontade e representação", outro livro de Schopenhauer, ele afirma que nós nascemos com o nosso caráter firmado, essencialmente inscrito em nossa personalidade. Em relação à vontade de nosso íntimo, nunca mudaremos. O máximo que podemos fazer é utilizarmos o nosso intelecto, se tivermos de fato um, para aprimorar a nossa vontade e transformá-la em algo positivo. Isso já é um avanço, mesmo que não ocorra uma transformação essencial do que nós somos. Mas, pelo menos, temos o conhecimento e o intelecto que, além do mais, nos ajuda a entender como o mundo e as pessoas funcionam.
Então, um importante passo para o reconhecimento de alguma felicidade, que nos alivie da dor e do sofrimento que o mundo impõe a nós, é nos conhecermos interiormente, preenchermos o nosso coração vazio de conhecimento e virtudes e, a partir daí, sentirmos orgulho de nós mesmos. Essa sedimentação do ser humano naquilo que ele realmente é deve ser tratada de maneira honrosa e nunca permitir a desonra. Com relação à vaidade, Schopenhauer é bem claro, ela é uma tentativa de obter uma opinião alheia favorável à nós e, em relação ao que os outros pensam sobre nós, nada há a acrescentar.
Enfim, na história trágica do capitalismo, em que o mundo exterior é esperado como algo que despertará dentro de nós um sentido da vida, somos que levados a viver um grande equívoco. Enquanto buscamos nos outros e nas coisas um pouco de paz e de felicidade e, logicamente, não encontramos, devemos buscar dentro de nós o nosso próprio significado.
Pensar assim dentro da lógica do sistema capitalista é remar contra a maré. Mas pelo menos estamos remando...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sem você
















Sem Você

Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero
E à solidão
Nada existe
E o tempo é triste
Sem você
Meu amor
Meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para que eu não sofra mais
Tanta mágoa assim
No mundo sem você
Essa linda canção pode ser ouvida na voz do Chico Buarque no site: http://www.youtube.com/watch?v=2N4U9pUmbxY
O amor morreu...???
Perdeu-se em meio à tanta discórdia e egoismo.
O romantismo se tornou piegas, sem graça,
porque ele não permite o imediatismo dos encontros.
A superficialidade faz com que se ausente os sentimentos.
As pessoas têm pressa e são fugidias,
se satisfazendo com tão pouco...
Alguns poderão dizer que o amor é algo orgânico,
biológico ou natural,
que o que aproxima duas pessoas são somente determinações gênicas.
Mas as pessoas não podem esquecer que nós é que inventamos a cultura,
e a percepção do amor, do sentimento, da vontade de acalentar e docemente tratar
não é realmente natural,
é resultado de uma vontade socialmente construida com base em uma expectativa de criar um novo mundo.
Nesse caso, o amor é uma invenção humana,
mas não é por essa razão que ele deve ser descartado, empoeirado sobre uma prateleira.
Creio que ele deva ser cultivado e adorado por todos aqueles que acreditam e precisam da sensibilidade, da aproximação afetiva, da crença na necessidade de se buscar e encontrar no mundo alguém para quem podemos ser verdadeiramente nós mesmos.
Estabelecer uma relação de dependência emocional com alguém não agradaria a Schopenhauer,
não agradaria a muitos que não aceitam o que para mim parece ser a inevitabilidade de ser alguém que vive para amar o amor que ama...
Acho que enquanto existirem pessoas assim,
canções como essa terão vez e espaço para serem ouvidas e tocadas ao violão em uma tarde tranquila qualquer...
Amar sem medo...
Amar querendo amar...
Amar para ser amado...
Amar para espantar o choro do solidão...
Amar para simplesmente dizer: eu te amo!