sexta-feira, 16 de julho de 2010

Criação imperfeita...




Terminei de ler o mais recente livro do Marcelo Gleiser, renomado físico brasileiro que leciona nos Estados Unidos e colabora com artigos na Folha de São Paulo todos os domingos. O livro é uma provocação reflexiva sobre o cosmo, a vida e o código oculto do universo, como se refere o próprio autor ao subtítulo do livro "Criação Imperfeita", publicado pela Record.

Adorei a análise, bastante didática aliás, do autor sobre a relação entre Pitágoras, o monoteísmo (judaísmo, cristianismo e islamismo) e as diversas tentativas científicas de se encontrar uma unidade cósmica. Em relação a Pitágoras, considerado pela tradição filosófica como um pré-socrático, temos a questão da matemática, em especial a geometria e mais especialmente ainda o círculo, enquanto uma idéia perfeita e simples. O quanto seu pensamento, hoje reduzido a comentaristas e talvez a fragmentos, influenciou Platão em sua teoria das Idéias. Trata-se da questão do movimento intelectual da abstração dos entes materiais em conceitos simples e perfeitos. É a visão que o filósofo encontra ao sair da caverna, citada no livro "República". Já o monoteísmo, que remonta segundo documentos históricos a Akenaton no Antigo Egito por volta de 1350 a.C. procura, de forma mítica, na figura de um Deus único (e daí surge a intolerância religiosa que tem até hoje provocado tantas guerras e violências) o demiurgo platônico, o Criador do que existe. Do ponto de vista cultural e histórico, essa busca pela unicidade contaminou a ciência a tal ponto que ainda hoje, talvez na mesma proporção que no século XVI ou XVIII, levou a concepções como o "Deus relojoeiro" de Voltaire ou a hipótese de Stephen Halkins sobre a criação do "Big Bang". Gleiser se comporta como Michel Onfray na Filosofia, realizando uma contra-história. Enquanto Onfray prefere os materialistas e hedonistas, Gleiser sugere como fundamento da "criação" e da "existência", inclusive e principalmente a nossa (denominada por ele de "humanocentrismo"), a imprevisibilidade, a imperfeição, o acaso que, tomado como exemplo, pode ser simplificado no movimento aleatório das partículas atômicas.

Querer uma teoria da perfeição ou uma idéia de um Deus perfeito, que deve ser relacionadas a visão pitagórica e platônica de que a verdade está na beleza (perfeição), é uma hipótese que deve ser descartada a despeito de tantas contra-provas científicas em vários campos do conhecimento.

Eleger a imperfeição significa abrir espaço para a individualidade, para a possibilidade criativa, contra o determinismo e, desta forma, no campo ético, investir na frase de Nietzsche em "Assim Falava Zaratustra" de que somente quem é ave pode voar sobre o abismo...

sábado, 10 de julho de 2010

Flores e vermes: a eternidade...




A filosofia não é uma viagem nas nuvens e aquele que se dedica a ela não é um ser poético, no sentido da poesia enquanto uma vertigem. A filosofia é a vida. É a dedicação de um tempo todo à reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo. É a busca do(s) sentido(s), que não são imanentes à natureza, mas que são atribuídos por nós mesmos e, desta feita, sem qualquer legitimidade externa. A única legitimidade possível é o desejo de que aquilo que nos dá algum sentido para viver é resultado de nossa escolha. Creio que existem dois tipos de filósofos. Aqueles que atribuem ao ser e ao mundo um sentido metafísico e aqueles que entendem que o ser e o mundo são materiais. Não é fácil fazer qualquer escolha sobre um dos dois grupos. Não dá para descartar a genialidade de Platão, de Kant, de Hegel etc e, ao mesmo tempo, não dá para negar a vitalidade, o desejo de vida, presentes em um Demócrito, em um Epicuro ou mesmo em Nietzsche. São extremos da história do pensamento filosófico. Porém, quando me deparo com questões cotidianas de escolhas a serem realizadas, fico tentado a fazer a opção pela vida. Isso significa levar à sério o que Bentham ou Mill disseram a respeito do utilitarismo. Para os apressados, o termo utilitarismo não tem qualquer relação com consumismo ou capitalismo, a um certo pragmatismo vulgar. Pelo contrário, o utilitarista é alguém que leva em consideração as consequências de suas ações no sentido de maximizar o bem, o alegre, o prazer e a felicidade para a maior quantidade de pessoas possível, tendo como pano de fundo uma preocupação qualitativa sobre essas sensações, o que muitas vezes torna difícil classificar, mas que deve nortear a reflexão. Em uma equação simplista, é preferível um prazer mais prolongado e menos intenso do que um prazer imediato e rápido e mais intenso; ou então é preferível um prazer a um desprazer qualquer. Para tanto, deve-se levar em consideração o sensualismo. O corpo sente e isso é um fato. Demócrito e Leucipo acreditavam que a verdade é atômica: átomos e vazio. A combinação dos átomos, que possuem diferenças entre si, é que se traduz no fenômeno, aquilo que se vê ou que se toca. O vazio é o não-ser, o espaço necessário para a conjunção dos átomos e das moléculas. Não há mais nada além desse materialismo. Em questões de ética, não há o que temer. A vida é uma só e não há além-mundo. Mas essa vida, a que temos, pode ser levada de maneira sensata ou não. E isso é uma questão particular para a humanidade. Por essa razão citei os utilitaristas anglo-saxões do século XIX. Se então a morte é a desintegração atômica não há com o que se preocupar. É o sono sem sonho. O descanso, afinal. Mas há a eternidade e ela está justamente nas novas possibilidades de combinações atômicas. Como não há, a priori, uma hierarquia entre os seres vivos, não há porque desvalorizar minha eternização em uma flor ou em um verme que incorporem alguns de meus átomos. A coisa é, a princípio, mais simples do que se pensa.

domingo, 9 de maio de 2010

O que será (À flor da pele)




O que será que me dá/Que me bole por dentro, será que me dá/Que brota à flor da pele, será que me dá/E que me sobe às faces e me faz corar/E que me salta aos olhos a me atraiçoar/E que me aperta o peito e me faz confessar/O que não tem mais jeito de dissimular/E que nem é direito ninguém recusar/E que me faz mendigo, me faz suplicar/O que não tem medida, nem nunca terá/O que não tem remédio, nem nunca terá/O que não tem receita.

O que será que será/Que dá dentro da gente e que não devia/Que desacata a gente, que é revelia/Que é feito uma aguardente que não sacia/Que é feito estar doente de uma folia/Que nem dez mandamentos vão conciliar/Nem todos os unguentos vão aliviar/Nem todos os quebrantos, toda alquimia/Que nem todos os santos, será que será/O que não tem descanso, nem nunca terá/O que não tem cansaço, nem nunca terá/O que não tem limite.

O que será que me dá/Que me queima por dentro, será que me dá/Que me perturba o sono, será que me dá/Que todos os tremores me vêm agitar/Que todos os ardores me vêm atiçar/Que todos os suores me vêm encharcar/ Que todos os meus nervos estão a rogar/Que todos os meus órgãos estão a clamar/O que não tem vergonha, nem nunca terá/O que não tem governo, nem nunca terá/O que não tem juízo (Chico Buarque - 1976).




Epicuro: somente há átomos e o vazio. Os átomos, o sumo do materialismo, se unem e se desunem de acordo com a natureza, que nada diz sobre isso. O vazio é o nada. O que dizer sobre coisas que não são conscientes? A natureza é amoral. Ninguém é bom ou mal. Ninguém faz escolhas certas ou erradas, apenas segue a sua natureza. Mas o "eu" é um aglomerado de átomos e vazio, o que mais esperar dele? Diante de tamanha naturalidade do ser e do fazer, nada além de misericórdia e tolerância. O que chamo a mim mesmo é apenas um substantivo sobre algo que não é em si. O "eu" é a somatória dos átomos e do vazio, agregados. O que faço não possui responsabilidade própria, apenas adjetivada. O Direito impõe penas à adjetivação do sujeito que não é. Mas se faz necessário na medida em que se produzem ilusões sobre o social, o ético, o corpo, a morte, que dão significado à existência. Mas a existência em si é mera adjetivação dada por cada uma das subjetividades, produtos dos átomos e do vazio. Em si, a natureza revela o sonho como "realidade". O instante é a realidade. A verdade é a História. Aos historiadores é facultado o poder de julgar os fatos ou então de narrá-los, mas nunca se julga os fatos em si e muito menos se narra o que aconteceu. Julga-se o aparente e narra-se o fenômeno. O nômeno, no dizer kantiano, nada nos diz, não porque não queira, mas porque não temos os instrumentos necessários para atingí-lo. Resta-nos a sabedoria. Sponville aponta para o desespero e a beatitude. O desespero é o não comprometimento com o futuro. A beatitude é a aceitação do passado. Viver é existir no instante presente! Então o que será que me dá? O que será que dá na gente? Sem descanso, sem pacificação, sem amenização e sem limite... Um "daimon", um demônio, uma chama, um desejo, que não sabemos de onde vêm, que nos intimida, nos acovarda e também nos encoraja, nos faz agir e nos faz pensar, um "eros" que nos faz amar...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Há juízes em Berlim!"



A frase "há juízes em Berlim", retirada de uma peça literária do século XVIII, durante o reinado de Frederico II na Prússia, serve de mote para uma reflexão sobre a Justiça no Brasil. A questão da separação dos poderes, anunciada por Montesquieu no "Espírito das Leis" e colocada em ação na Inglaterra parlamentar a partir do século XVIII, tornou-se universal no século XX. Nesse sentido, os juízes tornaram-se elementos chave no processo de constitucionalização do país. Isso quer dizer que as decisões judiciais na história recente do Brasil têm manifestado um grau de estatalidade, de acordo com o conceito elaborado por Fukuyama, que permeia a estabilização institucional brasileira no século XXI. Se levarmos em consideração a história recente do Direito, podemos notar que o positivismo jurídico do século XIX se traduziu em uma separação radical entre o Direito e a Ética. Há alguns anos atrás não era difícil encontrar um profissional do Direito que afirmasse que "a lei pode ser imoral, mas é a lei". Essa afirmação contraria a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e, em um sentido histórico, legitima a ausência de reflexão pelos magistrados e outros agentes públicos em períodos históricos paradigmáticos, como foi o nazismo na Alemanha dos anos 1930 e 1940. Naquele momento, as autoridades públicas, vinculadas ao Estado, agiam de acordo com a lei, sem levar em consideração os aspectos éticos do processo legislativo e da própria legislação, além de não levar em conta os resultados no longo prazo de suas decisões, alegando que estavam observando o Direito positivo imposto pelo Estado e que não cabia a eles uma crítica do texto legal. Essa ausência de compromisso com o humanismo, típica do positivismo jurídico, já muito bem analisado por Bobbio em um livro específico, procurava isentar a consciência da autoridade pública, judiciária ou policial. Pois bem, contemporaneamente, em termos de Brasil, após a constituição de 1988, os juízes têm podido arbitrar com maior liberdade e autonomia, pois o constitucionalismo brasileiro abre brechas para a criação de sentenças que levem em consideração a autonomia subjetiva do magistrado. E isso vem de encontro com um problema que considero relevante: até que ponto a legislação deve prevalecer sobre a autonomia do magistrado ou o contrário? Se pensarmos a democracia como o governo que promove decisões consensuais com base no debate público, segundo afirma Gunter Axt, devemos levar em consideração que o excesso de subjetividade na construção da sentença e, no caso do Supremo Tribunal Federal, a criação de uma jurisprudência que impacta a atuação dos juízes de primeira instância, creio que devemos buscar em Aristóteles a definição de virtude, como o meio termo, a moderação, a temperança. Isso quer dizer que o Direito não deve prevalecer sobre a moral, a ética, a tradição e muito menos o debate público e, ao mesmo tempo, deve servir de paradigma para a atuação das autoridades judiciárias no sentido de vincularem suas decisões ao consenso social, público, e não somente em seus juízos subjetivos. Do contrário, se não for encontrado o meio termo, estaremos constantemente ameaçados com a perda de autonomia do judiciário, por um lado e, do outro, da consciência do juíz, muitas vezes vinculada à sua história pessoal. Nada de afirmar "a lei é dura, mas é a lei", sem críticas e reflexões e, ao mesmo tempo, nada de autorizar um posicionamento pessoal, subjetivo, no processo de construção da jurisprudência. Democracia e debate público andam de mãos dadas!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sobre o olhar...



Estamos mais do que acostumados a olhar o mundo ao nosso redor por um determinado prisma. Muitas vezes, a perspectiva de nosso olhar é resultado de uma imersão que fazemos, por meio do processo de socialização, na cultura que predomina na sociedade. No nosso caso, que vivemos em uma sociedade capitalista, nosso olhar se detém nos ícones desse tipo de sociedade, que valoriza o individualismo e o consumismo. José Saramago disse uma vez, em seu tom corrente de pessimismo, que estava, quando criança, em um teatro de Lisboa e que acima de um camarote havia o símbolo da realeza portuguesa, muito rico em detalhes e beleza. Porém, como sentava em uma posição oposta, podia ver que o tal símbolo, um objeto de madeira rebuscada, era oco por dentro e estava completamente cheio de teias de aranha. Esse depoimento permite refletir sobre a necessidade de se olhar a totalidade e não somente as partes. O olhar da totalidade traz à tona realidades nunca antes vistas e, desta forma, agudiza nossa percepção da verdade e nos ilumina sobre o que pode estar em questão. Saramago cita, em seu depoimento, que no mundo em que vivemos estamos realmente dentro da caverna de Platão e, assim como os prisioneiros descritos no livro "A República", estamos vendo sombras impressas na parede da caverna e pensando serem essas sombras a realidade e a verdade das coisas. Portanto, o romancista português nos orienta a refletir sobre o olhar e suas possibilidades de ilusão. O encobrimento da realidade nos coloca diante de falsas verdades que nos manipulam e, como um fetiche, nos fazem pensar e agir de acordo com os interesses que dominam a sociedade. Vivemos em um mundo audiovisual e isso significa que somos bombardeados por imagens o tempo todo. O que essas imagens querem dizer? Na maioria das vezes querem dizer para comprarmos algo que nos tornará felizes. Mas quem diz que o consumismo nos torna felizes quer, de fato, vender mercadorias ou serviços como se fossem necessidades prementes de nossa existência. De fato, o que acontece, é que não temos mais tempo. O tempo nos é escasso e isso nos impossibilita a reflexão sobre a realidade. Um reflexão crítica que nos tornaria agentes da transformação.

Saramago escreveu o "Ensaio sobre a cegueira". Ele tem uma visão negativa, pessimista, da natureza humana. No livro ele narra a que ponto os homens podem chegar em termos de selvageria e barbária quando estão "cegos". No livro estão cegos mesmo, mas em uma sociedade ideológica, que manipula o olhar humano, estamos "cegos" mesmo vendo, só que vendo aquilo que inviabiliza e impossibilita a transformação. No "Evangelho segundo Jesus Cristo", Saramago fala de um Deus vaidoso, que condena seu primogênito ao sacrifício para não ser mais somente o Deus de um povo inexpressivo, os judeus, e tornar-se um Deus de toda a humanidade, mesmo que isso traga as guerras de religião, a intolerância e a violência.

Não compartilho essa noção de natureza humana pessimista de Saramago. Creio que podemos exercitar o nosso "olhar" em outras direções, não abandonarmos a utopia. Mas também não creio em uma esperança idealizada. Nesse ponto continuo firme com Sponville. Creio que podemos "olhar" o outro em seu sofrimento e não banalizarmos isso. Nos tornarmos solidários e ajudá-lo a empurrar sua pedra de Sísifo para o alto do rochedo, mesmo sabendo do absurdo da vida. Mas se a vida é absurda, como dizia Camus, podemos criar um sentido para ela, um sentido revitalizador, cheio de vida, de misericórdia, de solidariedade, de fraternidade. Para que isso possa acontecer, o nosso "olhar" deve ser crítico e nossas atitudes coerentes com o sentimento desperto pela reflexão. Olhar, pensar e agir, eis a questão!!!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Avatar




Assisti por duas vezes Avatar, esse sucesso de bilheteria. Fiquei sabendo que o filme teve um custo de aproximadamente 500 milhões de dólares e já faturou, em duas semanas, por volta de 1 bilhão e 600 milhões de dólares. O filme demorou cerca de 5 anos para ser produzido. Os atores não são muito conhecidos. A única que conheço é a Sigourney Weaver que fez, entre outros filmes, "Alien". James Cameron é um diretor competente. Achei a fotografia muito linda. Os cenários, figurinos e efeitos especiais são muito bons. Gostei mais de ter assistido em 3D. Parece que entramos no filme, interagimos com as imagens e atores. O filme é bem contemporâneo. Trata de clonagem, neurociência, ecologia etc. Creio que valhe à pena assistir ao filme. De minha parte, prestei atenção em algumas questões que o filme me remeteu. A mais importante para mim foi a interação do protagonista, que tem o seu avatar, com a sociedade alienígena. Me lembrei quase intantaneamente do filme "Dança com lobos". Ele é um ex-militar, paraplégico, que substitui o seu irmão morto em um assalto, porque possui a mesma estrutura genética, compatível com o avatar. Inicialmente ele é enviado para interagir com os alienígenas para conseguir informações sobre os seus costumes e verificar o que pode ser oferecido a eles para a desapropriação da região que possui um mineral muito valioso. Mas com o passar do tempo ele não só interage como passa a se sentir mais com alienígena do que como humano. É como se a realidade não fosse mais propriedade de seu corpo original, mas sim do corpo do avatar. Então ele passa a defender os interesses não mais da empresa terráquea, que explora e destrói o planeta, mas sim os interesses dos alienígenas. Até que no final ele se torna propriamente um alienígena. Como não identificar esse processo de aculturação com o filme "Dança com lobos"? É claro que uma obra de arte, qualquer que seja, literária, plástica, cinematográfica, dialoga com obras anteriores, não necessariamente no sentido de repetir o que já foi feito, mas de ter o que já foi feito como uma referência.
Fiquei pensando também em como, no ano de 2154, em que se passa o filme, com tanto avanço científico e tecnológico, a antropologia não tenha avançado o suficiente para entender que os alienígenas tinham valores bem diferentes dos valores culturais dos terráqueos. Que eles não precisavam de nada que nós pudessemos oferecer a eles, a ponto dos militares presentes na estação de exploração mineral optarem pela guerra, porque qualquer tipo de negociação diplomática seria fracassada. Como os executivos das empresas capitalistas presentes no planeta não possuiam conhecimento e inteligência suficiente, por terem historicamente vivenciado isso na Terra, para compreenderem a real situação da população alienígena e, desta forma, terem utilizado meios mais apropriados e efetivos para a extração do mineral?
Bom, como é um filme comercial, antes de mais nada, me incomodou muito o maniqueísmo apresentado nas personagens e situações dramáticas. O bem e o mal devem sempre ficar aparentes para o grande público, que se complica em seus pensamentos quando as coisas não se passam assim. O mesmo acontece com a questão do melodrama. Deve sempre existir um par romântico, porque do contrário, não há final feliz. Mas isso se faz necessário, porque se não o grande público não assistiria o filme. Deu meu desconto para isso.
A questão ecológica de que o filme trata remete a idéia de Gaia (Terra) como organismo vivo, interagindo com todos os seres que habitam o planeta. Em tempos de Copenhagem, aquecimento global etc, nada mais apropriado. Como professor, sei que temos que dar a mesma mensagem todo o ano, pois os mais jovens ainda não sabem. Mas como espectador isso se torna muito cansativo. Desde os anos 70 que tenham algum tipo de militância em relação à defesa do meio ambiente e, desta forma, o tema me é muito familiar. Mas há que se repetir, e repetir, e repetir, e ainda por cima, sensibilizar os novos, para que eles formem uma massa crítica que seja capaz de intervir, por meio da opinião pública, nas decisões dos principais governos e empresas do mundo.
Com relação aos animais, todos eles são inspirados em animais existentes aqui na Terra. Lembram rinocerontes, leopardos e até o extinto dinossauro carnívoro, que já apareceu em outro filme, "Parque dos dinossauros". A presença da "árvore das almas" é uma referência à dualidade entre o natural e o sobrenatural, algo já muito discutido na filosofia, o da existência de uma racionalidade além da natureza mas em comunicação com ela. No filme ela recebe o nome de "Eiwa".
Enfim, teria muito mais a escrever sobre o filme, mas fico por aqui, recomendando a todos que o assistam, porque é um belo filme e que possui uma mensagem que considero importante.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Liberdade é atitude



Terminei de ler a interessantíssima biografia filosófica e pessoal de Martin Heidegger, um pensador alemão do século XX que escreveu um livro pedreira intitulado "Ser e Tempo". Rüdiger Safransky é um biógrafo como poucos. Ele não é positivista em suas descrições e, desta forma, não elabora uma narrativa linear, do tipo cronológica. Ele parte dos estudos de Heidegger e das possíveis interações das reflexões desse "mestre da Alemanha" com sua vida pessoal. Em particular, o que me interessa escrever agora em meu blog, é a questão da liberdade individual e da escolha. Heidegger, a partir de 1933, torna-se nacional-socialista, isto é, membro filiado do partido nazista na Alemanha de Adolf Hitler. É nomeado reitor de uma renomada universidade alemã e assume uma postura e orienta suas ações de modo a aceitar o projeto histórico do nacional-socialismo encarnado na pessoa do "führer". Sofreu inúmeras críticas no pós-guerra por essa escolha, especialmente de sua mais famosa aluna, a grande pensadora Hannah Arendt. Tenho a impressão de que no livro "Origens do Totalitarismo" ela escreve sobre a ascensão do nazismo na Alemanha nos anos 20 e 30 pensando em Heidegger. Pois bem, a escolha dele é mera desculpa para escrever o que me proponho. Heidegger fala muito no "estar no mundo", no "estar presente", na vivência do "ser" no tempo e na própria história. E, pelo que entendi, o "ser" precisa existir de uma única forma, que é a ação. Aqui, a ação é contrária à contemplação. Apesar de recorrer muito à Platão, Heidegger não defende uma filosofia contemplativa, mas uma filosofia ativa. Há, sem dúvida, pontos de concordância com o velho mestre grego, pois Platão correu risco de vida quando viajou para Siracusa, na Sicília, para transformar um rei despótico em um rei filósofo. Platão não foi tão contemplativo assim. Pois bem, desta forma, "estar no mundo" é agir. E agir significa vivenciar na sua integralidade a liberdade, portanto, as escolhas que somos sempre instigados a fazer. O homem é a escolha que ele faz para si próprio e para os outros, e que também tem repercussões em relação aos outros. A inação é a negação do "estar no mundo". A inação, que sugere a contemplação, é a negação do próprio existir. Heidegger escolheu o nacional-socialismo e mudou, em diversos momentos, seu discurso. Porém, após a guerra e instigado pelas críticas que fizeram a ele, ele respondeu que naquele momento, em uma Alemanha vivendo uma depressão econômica, resultado da crise de 1929, com sete milhões de desempregados, mais as suas famílias, sem perspectiva, sendo obrigada a pagar vultuosas somas em moeda com indenização de guerra, porque tinha perdido e culpabilizada pela Primeira Guerra Mundial segundo o Tratado de Versalhes, porque perdeu territórios, porque a auto-estima do povo alemão estava a mais baixa possível, entre outras razões, e porque Hitler personificava, naquele momento, a possibilidade de uma revolução na Alemanha, a construção, que hoje sabemos ser estética, de uma Alemanha "nova", engajou-se na vida pública e política com coragem e determinação. Em carta a um ex-aluno depois da Segunda Guerra Mundial, ele disse que ações exultantes como a dele também foram compartilhadas por homens como Hegel e Hölderling, que viam em Napoleão Bonaparte o triunfo da "razão" iluminista e dos princípios de liberdade e igualdade entre os povos e nações. Pois bem, Heidegger escolheu mal segundo os olhos do presente, mas naquele momento histórico, Heidegger fez a sua "melhor escolha", pois não há nada fora de nós que legitime dizer que a escolha de qualquer pessoa tenha sido "certa" ou "errada". E é desta forma que penso e sinto Heidegger com misericórdia, no sentido de Sponville, reconhecendo a verdade histórica, as escolhas do "mestre da Alemanha" mas não o odiando e, desta forma, abrindo espaço para o amor, no sentido de "agapé", ou seja, o amor universal, que me permite hoje ler seus livros e artigos com generosidade, aprendendo com esse grande filósofo o "mergulho que fazemos na vida", o próprio "dasein", e utilizar minhas reflexões, a partir de sua obra e de sua biografia para a minha própria vida, para minhas escolhas e, consequentemente, para o exercício da minha liberdade. Amanhã será dia 12 de Dezembro e fiz minha escolha, livremente, responsavelmente. Agi no mundo de acordo com o que considero minha "melhor escolha" em face das premissas subjetivas e objetivas que hoje tenho em mãos e que, com certo grau de imprecisão, minha razão e meus sentimentos podem avaliar. É tudo na vida uma questão de se compreender o "ser" no "tempo", o "ser" que somos, momentaneamente, e o "tempo" presente, que temos, também momentaneamente. Saudações heideggerianas para todos...