quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sobre a tortura, a anistia e a banalidade do mal














Faz trinta anos que o regime militar, instalado no Brasil em 1964, aprovou a lei da anistia, que concedia a libertação e o perdão aos militantes políticos que lutaram contra a repressão, mas também permitiu que os agentes estatais, policiais e militares especialmente, não sofressem qualquer tipo de julgamento e punição por terem torturado milhares de pessoas nos porões sombrios de organizações como o DOI-CODI e o DOPS.
Em 2004 o PNUD publicou um documento, resultado de uma extensa pesquisa, sobre a democracia na América Latina. Um dado que me surpreendeu foi que mais de 60% dos latino-americanos abririam mão do Estado Democrático de Direito e aceitariam um regime ditadorial se este oferecesse emprego e renda.
Posso até pensar que parte do raciocínio esteja relacionada com a situação de miséria e desigualdade social que reina na América Latina. Porém, não posso concordar com essa posição por dois motivos: a democracia possui mecanismos institucionais, políticos e legais que permitem o avanço no processo de distribuição de renda e um regime ditatorial contraria todos os princípios dos direitos humanos.
Acredito mais naquilo que Brecht denominou de "analfabetismo político". A memória histórica latino-americana e, em especial, a brasileira, está em frangalhos. Os jovens não têm a mínima noção do que aconteceu nesse país durante o regime militar. A escola não consegue informar e sensibilizar minimamente os estudantes sobre o tema. O Estado, em seus diversos níveis, não promove a construção de memoriais com a finalidade de gravar com a arquitetura e a arte a violência selvagem que assolou o país durante aqueles anos da ditadura militar. Milhares de famílias foram desestruturadas e ficaram desamparadas quando um de seus membros foi torturado e morto pelas forças da repressão.
Em 1979 veio a lei da anistia. Havia uma pressão da sociedade civil e também internacional para que ela fosse aprovada. Porém, uma questão estava em jogo. Fundamentalmente o que iria acontecer quando o país voltasse à normalidade democrática com aqueles que, na função de servidores públicos, utilizaram meios medievais para a realização do inquérito de prisioneiros políticos? Provavelmente seriam presos, julgados e condenados pelo crime de tortura, para não dizer o de homicídio qualificado, em tribunais democráticos.
Então era mais inteligente anistiar todos, presos políticos, exilados, torturadores etc. Para ser mais preciso, a lei da anistia ainda sofreu algumas reformas, porque alguns presos, especialmente aqueles que cometeram homicídios, sequestros e assaltos continuaram presos por mais algum tempo.
Da noite para o dia, aquele homem ou mulher que, impunemente e sem qualquer restrição legal ou administrativa, colocavam um jovem nu sentado em uma cadeira e lhe davam choques elétricos, ou então uma jovem, nua, deitada em uma cama e a estupravam barbaramente, passariam a ser considerados pela Justiça e pela lei cidadãos normais, acima de qualquer suspeita.
Veio a redemocratização em 1985, com a eleição de Tancredo Neves, a Constituinte em 1986, a própria Constituição em 1988. Tivemos novamente eleições diretas em 1989. Em 1994, um intelectual que foi cassado e perseguido durante a ditadura militar, o Fernando Henrique Cardoso, foi eleito presidente e, agora, um ex-metalúrgico, que foi militante sindical durante o período de repressão e diversas vezes presos, é o presidente da República. Porém, o que foi feito de significativo a respeito dos torturadores?
Muitos documentos foram levados nos anos 80 para a guarda da polícia federal, chefiada na época pelo Romeu Tuma. Quando voltaram aos estados tinham sido saqueados, sendo que uma parte significativa das informações sobre os torturadores desapareceram e não estão disponíveis aos pesquisadores.
Os parentes das vítimas de homicídio e as vítimas sobreviventes passaram a ter o direito de exigir do Estado brasileiro o reconhecimento da prática de tortura e, desta forma, o direito de uma indenização financeira. Essa indenização não apaga o passado e muito menos o sofrimento dessas pessoas. Mas é uma forma do Estado minimizar o dano causado a elas. Porém, mesmo assim, o critério para avaliar o valor a ser indenizado é desigual e, a maioria, recebe uma quantia irrisória em relação ao que sofreu no passado.
Mas a questão que quero abordar mais especificamente é a figura humana do torturador.
Hannah Arendt escreveu um livro intitulado "Eichmann em Jerusalém". Eichmann era um oficial da SS nazista durante a guerra e o responsável pela logística em um campo de concentração para encaminha milhares de prisioneiros judeus para a câmara de gás.
Terminada a guerra, ele fugiu da Alemanha e se escondeu na Argentina. Em 1960 o serviço secreto israelense o encontrou e o levou para Jerusalém, onde foi julgado e condenado à morte.
Diante da pergunta do juíz se ele se considerava culpado ou inocente, não teve dúvida em responder que era inocente.
O juíz ficou pasmo e perguntou por qual motivo. Ele respondeu que era um oficial da SS recebendo ordens superiores. Servia ao Estado nazista alemão que possuia leis que o autorizavam a fazer o que vinha fazendo. No caso de desobedecer às ordens poderia ser punido severamente. Era, portanto, um burocrata a serviço do genocídio.
Hannah Arendt chamou a esse tipo de mentalidade de "banalidade do mal". A tecnocracia da morte e do terror passou a imperar no mundo da modernidade científica e tecnológica.
A questão que faço é a seguinte: onde reside o humano dentro desse burocrata do mal?
Não há o humano no sentido gnóstico. O que há é uma engrenagem da qual ninguém pode escapar porque não possui o menor senso de reflexão crítica e valores da dignidade humana. Associa-se essa alienação ao prazer macabro e sádico de ter um poder desse tipo nas mãos e temos uma das maiores tragédias da história.
E no Brasil, durante a ditadura militar, ocorreu a "banalidade do mal"?
A legislação brasileira nunca permitiu a tortura. O Brasil, desde o começo do século XX é signatário de diversos tratados e convenções internacionais que considera a tortura como um crime contra a humanidade. O documento mais importante assinado pelos representantes do governo brasileiro é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas em 1948.
Desta forma, os torturados dos porões da ditadura militar não estavam seguindo a lei quando torturavam os presos políticos. Seus superiores não ordenavam expressamente a prática de tal ação violenta e covarde. Mas faziam assim mesmo. E depois, no final do expediente, voltavam para seus lares, suas famílias, brincavam com seus filhos, assistiam a uma novela na televisão e iam dormir em paz.
Então porque torturavam pessoas indefesas?
Essa é a questão que está por detrás de tudo o que eu escrevi até agora e que me intriga.
Do ponto de vista histórico, a polícia e as forças armadas no Brasil, sempre gozaram de impunidade e de um poder monstruoso contra a sociedade. Era de se esperar que, em face da negligência das autoridades superiores, os torturadores utilizaram os meios que podiam tendo a certeza de que não sofreriam qualquer tipo de censura. Aliás, mesmo após a redemocratização e ainda hoje, a tortura é um dos meios mais utilizados pelos policiais para investigações criminais, especialmente em relação à população pobre que não possui meios de se defender judicialmente dessa prática.
Do ponto de vista filosófico, creio que precisamos nos reportar à condição moral do ser humano. O homem é um ser racional e moral, porque possui a consciência. Esta dá a ele a liberdade no agir. Porém a liberdade acarreta a responsabilidade e, nesse ponto, ninguém era, foi ou será realmente responsabilizado. Pode-se pensar em algum tipo de remorso ou de arrependimento por parte dos torturadores que ainda estão vivos e andam livremente pelas calçadas de nossas cidades?
De uma perspectiva psicanalítica, creio que no controle da situação e de posse de um poder contra o qual a vítima não podia se defender, a sensação orgásmica que a prática da tortura permitia aos seus protagonistas sentir é motivo suficiente para entendermos sua forma desumana e cruel de tratamento aos presos políticos.
Enfim, quem é o torturador?
É todo aquele agente público que utiliza de métodos violentos físicos e morais para obter informações, relevantes ou não, dos presos políticos na prática do inquérito policial.
Mas também somos todos nós que na época sabíamos que isso ocorria no subterrâneo da sociedade brasileira e não fizemos nada e todos os que hoje sabem desse fato e se omitem por conta do individualismo proporcionado pela sociedade consumista e, finalmente, aqueles que não sabem o que ocorreu e que, diante da possibildade de saber do acontecimento, negam-se a isso em nome de seus interesses pessoais vinculados ao que poderiam chamar de um "novo" momento da história brasileira onde isso não ocorre mais.
O que fazer, portanto, com os trinta anos da anistia?
Lembrar os que se esqueceram, punir os que praticaram a tortura e ensinar os mais jovens o valor fundamental de se viver em uma sociedade democrática, mesmo tendo ainda tanto o que se fazer e sendo ela algo ainda muito limitado. Mas é o que temos e não podemos abrir mão disso. Que a justiça se faça e que a memória brasileira mantenha-se viva sobre essa mancha em nossa história para que fatos como esse não ocorram nunca mais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Roda de ratos


Ontem à noite houve um seminário sobre o livro do Immanuel Wallerstein, "Capitalismo histórico e civilização capitalista" no 3o. ano de História. O texto é primoroso, com um bom embasamento teórico e contextualiza bem a história do capitalismo desde o século XV. A certa altura da apresentação do aluno Rafael, ele faz uma citação do Wallerstein sobre o comportamento do capitalista, como um rato que fica correndo em uma roda dentro de uma gaiola e, quanto mais ele corre, mais ele quer correr, fazendo uma alusão à vontade da acumulação de capital.
Nesse momento, senti uma vontade grande de interferir na fala do aluno e fazer uma inferência por outros corredores do pensamento. Lembrei-me do livro do Marshall Berman, "Tudo o que é sólido desmancha no ar" e, em especial, o capítulo em que ele analisa o poema de Goethe, "Fausto".
O personagem Fausto faz um pacto com Mefistófeles para poder seduzir uma moça, loura, ingênua, pura e virgem, uma camponesa idealizada por Fausto como a mulher de seus sonhos. Vende a alma para o diabo. No final da história a moça é seduzida e Fausto apresenta o mundo dele para ela que, por ter um cérebro, simplesmente, se transforma e passa a desejar uma vida bem diferente da que ela tinha e que tanto seduzia Fausto. Enfim, a moça deixa de ser a mulher idealizada de Fausto e este se entedia com ela.
Ele então decide partir para aventuras mais perigosas, "baladas" mais picantes, conhecendo aquilo do mundo, ou do submundo, em que busca o prazer insaciavelmente. Quanto mais prazer ele busca, mais prazer ele quer. Não há uma quota de prazer suficiente para pacificá-lo. Até que chega um momento em que ele se entedia de tanto prazer sensual.
A partir daí, sem querer entrar nos meandros do texto, Fausto passa a desejar transformar o mundo de acordo com sua vontade. Torna-se um capitalista selvagem e decide comprar tudo, destruir o já existente e construir novas coisas. Porém, as novas coisas construídas o entediam também e, novamente, a destruição para a reconstrução. Em certo momento, há no terreno em que ele está comprando uma casa simples, onde mora um casal de anciãos. Ele tenta comprar a qualquer preço a casa deles, mas eles resistem, como se quisessem dizer que o mundo todo não pode ser comprado por um homem só e, ainda mais, resistem para lembrar a todos de um tempo passado onde a vida tinha um ritmo natural, não fatigado pelo relógio e pela lógica especulativa da acumulação do capital.
Fausto não titubeia e manda uns capatazes incendiar a casa dos anciãos e eles morrem. Enfim, Fausto é o dono de tudo. E destrói e reconstrói dentro de uma lógica em que o que se parece novo, nada de novo possui. Uma verdadeira aventura sobre a modernidade. Fausto sempre foi infeliz...
Em todos os momentos, Fausto buscou a felicidade. Mas a buscou fora de si mesmo. Tinha como premissa ter e possuir pessoas e coisas.
Nesse momento da minha reflexão, lembrei-me de Schopenhauer e de seu livro "Aforismos sobre a sabedoria da vida". No início, o filósofo alemão afirma que o homem pode ser medido a partir de três critérios.
O primeiro é o que alguém possui. Por mais que possua bens, esses bens não trarão nunca a felicidade, porque são exteriores ao indivíduo. Além do que, a lógica do consumismo impõe uma constante dor e sofrimento, na medida em que a vontade saciada com a compra de uma mercadoria impõe o tédio e, uma nova vontade impele a pessoa a comprar uma nova mercadoria e assim indefinidamente. A felicidade nunca é alcançada!
O segundo é o que os outros representam sobre nós. Schopenhauer afirma que é uma bobagem nos preocuparmos com o que os outros pensam ou falam a nosso respeito, pois o mundo é formado, na sua maior parte, por néscios e medíocres que nada têm a dizer de significativo sobre nós mesmos. É por isso que ele diz que os homens gostam de jogar cartas. Já que eles são vazios, sem conteúdo, e nada tem a trocar entre si no campo das idéias, então trocam as cartas no jogo. Uma brilhante ironia para o desperdício de tempo em banalidades!
O terceiro é o que alguém é. Em "O mundo como vontade e representação", outro livro de Schopenhauer, ele afirma que nós nascemos com o nosso caráter firmado, essencialmente inscrito em nossa personalidade. Em relação à vontade de nosso íntimo, nunca mudaremos. O máximo que podemos fazer é utilizarmos o nosso intelecto, se tivermos de fato um, para aprimorar a nossa vontade e transformá-la em algo positivo. Isso já é um avanço, mesmo que não ocorra uma transformação essencial do que nós somos. Mas, pelo menos, temos o conhecimento e o intelecto que, além do mais, nos ajuda a entender como o mundo e as pessoas funcionam.
Então, um importante passo para o reconhecimento de alguma felicidade, que nos alivie da dor e do sofrimento que o mundo impõe a nós, é nos conhecermos interiormente, preenchermos o nosso coração vazio de conhecimento e virtudes e, a partir daí, sentirmos orgulho de nós mesmos. Essa sedimentação do ser humano naquilo que ele realmente é deve ser tratada de maneira honrosa e nunca permitir a desonra. Com relação à vaidade, Schopenhauer é bem claro, ela é uma tentativa de obter uma opinião alheia favorável à nós e, em relação ao que os outros pensam sobre nós, nada há a acrescentar.
Enfim, na história trágica do capitalismo, em que o mundo exterior é esperado como algo que despertará dentro de nós um sentido da vida, somos que levados a viver um grande equívoco. Enquanto buscamos nos outros e nas coisas um pouco de paz e de felicidade e, logicamente, não encontramos, devemos buscar dentro de nós o nosso próprio significado.
Pensar assim dentro da lógica do sistema capitalista é remar contra a maré. Mas pelo menos estamos remando...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Sem você
















Sem Você

Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Sem você
Sem amor
É tudo sofrimento
Pois você
É o amor
Que eu sempre procurei em vão
Você é o que resiste
Ao desespero
E à solidão
Nada existe
E o tempo é triste
Sem você
Meu amor
Meu amor
Nunca te ausentes de mim
Para que eu viva em paz
Para que eu não sofra mais
Tanta mágoa assim
No mundo sem você
Essa linda canção pode ser ouvida na voz do Chico Buarque no site: http://www.youtube.com/watch?v=2N4U9pUmbxY
O amor morreu...???
Perdeu-se em meio à tanta discórdia e egoismo.
O romantismo se tornou piegas, sem graça,
porque ele não permite o imediatismo dos encontros.
A superficialidade faz com que se ausente os sentimentos.
As pessoas têm pressa e são fugidias,
se satisfazendo com tão pouco...
Alguns poderão dizer que o amor é algo orgânico,
biológico ou natural,
que o que aproxima duas pessoas são somente determinações gênicas.
Mas as pessoas não podem esquecer que nós é que inventamos a cultura,
e a percepção do amor, do sentimento, da vontade de acalentar e docemente tratar
não é realmente natural,
é resultado de uma vontade socialmente construida com base em uma expectativa de criar um novo mundo.
Nesse caso, o amor é uma invenção humana,
mas não é por essa razão que ele deve ser descartado, empoeirado sobre uma prateleira.
Creio que ele deva ser cultivado e adorado por todos aqueles que acreditam e precisam da sensibilidade, da aproximação afetiva, da crença na necessidade de se buscar e encontrar no mundo alguém para quem podemos ser verdadeiramente nós mesmos.
Estabelecer uma relação de dependência emocional com alguém não agradaria a Schopenhauer,
não agradaria a muitos que não aceitam o que para mim parece ser a inevitabilidade de ser alguém que vive para amar o amor que ama...
Acho que enquanto existirem pessoas assim,
canções como essa terão vez e espaço para serem ouvidas e tocadas ao violão em uma tarde tranquila qualquer...
Amar sem medo...
Amar querendo amar...
Amar para ser amado...
Amar para espantar o choro do solidão...
Amar para simplesmente dizer: eu te amo!

domingo, 30 de agosto de 2009

A deriva


Há algumas semana atrás, no domingo do dia dos pais, fui com minha filha a um cinema em São Paulo assistir ao filme do Heitor Dhalia, "A Deriva". Era importante assistirmos juntos a esse tão belo filme, que trata do reencontro, da redescoberta e da construção de novos paradigmas sobre a significação de um para o outro.
Contruimos papéis para nós mesmos e para os outros durante toda a vida. Muitas vezes esses papéis são ilusórios e nos frustramos com nossa dificuldade em reconhecer o outro como interlocutor.
No filme, o pai, um escritor francês vivendo uma crise no casamento, está em sua casa de praia com a esposa e os três filhos. A filha mais velha tem uma profunda admiração pelo pai, na medida em que atribui a ele o papel tradicional que uma adolescente pode atribuir a seu próprio pai. Porém, diante da crise do casamento, ele possui um relacionamento extra-conjugal e a filha descobre. Passa a odiá-lo, como se ele tivesse traído uma relação com a filha que, na verdade, significa um outro papel.
A questão é que ela não compreende o pai como homem, como um ser que possui identidade própria, limitado em suas possibilidades como ser humano e, como todos nós, carente de afeto e de compreensão.
Há um clima de tensão muito forte, especialmente quando a filha descobre, porque a sua mãe conta, que o casal irá se separar, não pelo fato do pai ter um envolvimento casual com outra mulher, mas pelo fato da mãe ter se apaixonado por um rapaz em São Paulo, dez anos mais novo, e não querer viver mais com eles.
Sentindo-se atormentada por essa situação, a garota acaba tendo sua primeira relação sexual com um jovem mais velho que ela, em um barco, descobrindo-se mulher. A cena final em que ela desce do barco e encontra na beira do mar o pai na praia, que tinha ficado a noite toda procurando sua filha, é maravilhosa! O abraço dos dois na beira mar é comovente, pois ele percebe o que aconteceu com a filha e compreende que ela cresceu e, por sua vez, ela, na medida em que descobre a sua sexualidade e encontra uma outra identidade no mundo, reconhece em seu pai o homem que ela não conseguia ver antes, com suas questões existenciais e próprias de alguém que se aproxima da meia idade.
Vivemos sempre descobrindo novas possibilidades de relacionamento e, na medida do possível, reconstruindo nossas identidades em relação a quem nos rodeia.
Ter assistido ao filme "A Deriva" com minha amada filha foi simplesmente um dos momentos mais significativos de minha vida!
Precisamos sempre aprender e reaprender que somos nós, e somente nós, que damos um sentido à nossa vida e que esse sentido não depende de ninguém mais. O outro, seja lá quem for, mas especialmente se é alguém tão especial como a própria filha, segue o seu caminho e nosso papel, nesse momento, é o de acompanhar com olhar compassivo e cheio de alegria, sua caminhada por esse mundo que possui tantas possibilidades...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O que está por detrás da gripe suína?

















Amigos, o fenômeno midiático é um importante instrumento de divulgação de paranóias e histerias coletivas à serviço de poderosos interesses capitalistas de grandes empresas em diversas áreas. Nesse caso, estamos sendo manipulados pelos interesses da indústria farmacêutica intrinsecamente ligada à membros da estrutura governamental de diversos Estados, especialmente dos Estados Unidos da América. Vamos refletir?


Acessem o site: http://www.youtube.com/watch?v=CcgCBiyGljM .


Um abraço à todos e... um pouco de lucidez!!!

sábado, 25 de julho de 2009

Sobre a condição humana


O que é realmente importante para nós?
O significado da condição humana, sem querer parafrasear Hannah Arendt, mas inspirado em Schopenhauer, está intrinsicamente relacionado com o que efetivamente somos no campo subjetivo. A minha percepção da realidade é o que importa e o que é carregado de significado. Aquilo que possuo, minhas posses e bens, são voláteis e, se são exteriores a mim, nada acrescentarão de fato em minha existência. Se possuo um automóvel ele se torna um veículo de transporte, que pode facilitar minha vida no sentido de possibilitar meu trânsito pela cidade. Pode também representar um certo prestígio em uma sociedade de consumo onde a representação que se faz de minha pessoa está relacionada com a propriedade do veículo. Porém, no sentido da minha condição humana, vale a percepção que tenho daquilo que possuo. Quero dizer com isso que minha felicidade ou alegria não está, necessariamente, atrelada à propriedade de um objeto material, exterior. É minha percepção que importa e, desta forma, esta se constitui em um dado subjetivo. Posso estar infeliz mesmo possuindo bens materiais e, outra pessoa qualquer, desprovida desses mesmos bens, pode se sentir feliz e realizada. O nível de contentamento não é objetivo porque está relacionado com a percepção que cada um tem de si mesmo em um determinado contexto.
Uma ação de alguém pode ser, para mim, algo que tenha produzido muito prazer para a pessoa que a realizou. Porém, essa mesma pessoa pode estar arrependida de ter realizado tal ação ou mesmo ser infeliz por tê-la realizado. Não se trata, desse modo, de eu querer copiar o que o outro fez, reproduzir sua ação na totalidade, para que eu seja feliz, pois é apenas um pressentimento de uma sensação de prazer, alegria ou felicidade pelo ato do outro mas que para o outro pode ter tido um significado diferente.
Será possível medir ou identificar minha felicidade pelas ações alheias? Ou então, será possível caracterizar minha vida e minhas escolhas pelas representações que os outros fazem daquilo que escolho e realizo? Essa é uma questão essencial na minha argumentação, pois sou eu e somente eu que devo determinar o significado de minhas ações e não pautá-las pelas opiniões alheias ou pelas escolhas das outras pessoas.
A imagem que escolhi, fotografada por Sebastião Salgado tem o significado do desespero diante da nossa condição existencial. Não quero simbolizar na imagem qualquer relação entre riqueza e pobreza material, mas entre riqueza e pobreza de espírito. Schopenhauer afirmou que um camponês com saúde é muito mais feliz do que um rei doente e em nada invejaria a condição do rei, pelo contrário, sentiria pena dele e de todo o sofrimento que carrega. Diante da condição alheia não cabe a mim o desespero, como a representação da foto em que a mulher está com as mãos sobre a cabeça em postura reflexiva, em minha percepção subjetiva, em relação à sua própria vida. A condição humana, dessa forma, deve ser determinada pela percepção que cada um tem daquilo que faz e de suas próprias escolhas. Pouco deve importar o que possuímos materialmente (porém, nesse ponto concordo com Schopenhauer, não se trata de abstrair uma condição material de absoluta miséria e, desta forma, agir no sentido de garantir uma condição de satisfação material minimamente desejável e confortável), menos ainda a opinião que os outros têm sobre nós mesmos, mas o que efetivamente somos, mesmo que em uma condição de transitoriedade constante, um eterno vir-a-ser, o "penta rei" ("tudo passa") de Heráclito, em uma situação presente e desejável por nós.
Não quero invejar as escolhas alheias, pois tenho minhas próprias e singulares escolhas e é em relação a elas que devo me sentir feliz ou infeliz. De fato, o que me interessa é a possibilidade de determinar minha própria condição humana naquilo que ela representa em relação a minha subjetividade. As escolhas alheias não podem me parecer satisfatórias, pois o outro, que as fez, pode tomá-las como um inferno de vida e, pelo contrário, me parecer o paraíso. Então, nada deve me importar a não ser aquilo que efetivamente faço e realizadamente sou.
Enfim, para que minha condição humana produza em mim mesmo a sensação de completa realização, ela não deve estar relacionada com o que possuo materialmente nem com a opinião dos outros a meu respeito e, muito menos, pautada nas ações alheias, mas singularmente referirem-se a minha própria pessoa e opinião. Só para lembrar Nietzsche, não devo arrepender-me de nada do que fiz no passado e viver o presente como se fosse em si mesmo uma eternidade.

domingo, 12 de julho de 2009

Memórias da cana


Estou de férias!!! De repente, sexta passada, fui para São Paulo ver minha filha e, como sempre, fomos ao teatro. Fomos ao teatro da companhia "Os fofos encenam" ver a peça na qual ela foi estagiária, "Memórias da cana". Simplesmente impressionante!!!
A direção é do Newton Moreno, não precisa dizer mais nada. Porém, como esse é o meu espaço para escrever, direi algumas coisas. Logo que chegamos o cenário me impressionou muito. Uma casa grande, no estilo daquelas casas descritas pelo Gilberto Freyre no livro "Casa grande e senzala". O público fica ao redor do espaço onde a peça é encenada. O palco, central, é dividido por cortinas transparentes que simulam os cômodos da casa e, no centro, uma grande mesa onde os atores interagem. No início da peça os atores, devidamente caracterizados em seus personagens, encontram-se nos cômodos ruminando palavras, digressões sobre o caráter de suas personalidades, pensamentos em voz alta sobre a visão que cada um tem daquela família patriarcal.
Não vou me alongar na descrição, mas a família patriarcal é um traço histórico marcante no nordeste brasileiro, onde a figura do pai, o senhor de engenho e proprietário de terras exerce uma função de poder desmedido, quase absoluto, sobre a esposa, os filhos, os agregados e, no caso de ser o contexto anterior à 1888, em relação aos escravos.
A peça é inspirada na obra de Nelson Rodrigues "Álbum de família", escrita nos anos 1960 e dirigida como crítica à classe média carioca. Porém, os arquétipos da família patriarcal permanecem e, nesse caso, a trasposição do texto rodriguiano para o interior pernambucano não interfere em nada na percepção psicológica e sociológica dos valores dominantes.
As personagens são estereótipos de singularidades humanas que representam o contexto da família patriarcal.
O pai, a personagem Jonas, é um homem autoritário e que domina a família por meio da violência física e moral. É um hipócrita, pois ao mesmo tempo que exerce uma vigilância constante sobre o comportamento dos parentes, "compra" de um cafetão meninas adolescentes de 13 ou 14 anos, virgens, para deflorá-las na própria casa, sendo que a esposa e os filhos sabem do fato. Ele próprio, em uma noite em que estava bêbado, estupra a própria cunhada. Na verdade, existe um desejo incestuoso do pai em relação à filha Glória, que foi enviada para um internato católico, como um repositório de virtudes castas, mas que é expulsa do mesmo por ter tido um envolvimento homossexual com uma das colegas. Parece-me que, na perspectiva psicológica, o pai deflora adolescentes negras virgens por não poder deflorar a própria filha. Esse é um aspecto trágico da peça.
A esposa, da qual não se sabe o nome, pois é apenas chamada de "senhorinha", é uma mulher sensual mas que, pelo fato de ter casado sem amor ou paixão, torna-se fria no casamento, servindo apenas de procriadora da prole que irá, um dia, herdar a fazenda. "Senhorinha" teve um envolvimento incestuoso com um dos filhos, Nono, que enlouqueceu. Porém, a loucura de Nono parece-se como uma convulsão dionisíaca, um espetáculo de sensualidade que a todo instante percorre o cenário e as personagens.
Há uma tia, a Ruth, solteirona, que foi estuprada por Jonas e que vive exclusivamente para ele, tratando-o como um rei. Mulher ressentida, pois é vista por todos como uma mulher feia, sem nenhum atrativo sexual, sofre em sua solidão e em sua dependência em relação à família que, na verdade, a desconsidera. Ruth é uma personagem emblemática, enterrada em seu catolicismo tradicionalista e, ao mesmo tempo, recalcada por sua condição de mulher indesejada sexualmente.
Um dos filhos, Edmundo, recém-separado, viveu três anos com a esposa sem tê-la tocado. Na verdade, Edmundo nutre um desejo incestuoso em relação à mãe e, desta forma, odeia o pai. Contardo Calligaris no último Café Filosófico discorreu sobre o ciúme inconsciente do filho em relação ao pai pelo fato deste ter tido relação sexual com a mãe, desejada edipianamente, para que o próprio filho nascesse. Quando Edmundo fica sabendo da própria mãe que ela teve um amante, se porta como se consentisse o pai para que este matasse o violador da "sacrossanta" castidade materna que, no fundo, ele queria só para si.
Guilherme, que seguia os passos sensuais do pai, mulherengo e viril, entra para o seminário e se automutila, castrando-se. Retorna para casa para anunciar a relação homossexual de Glória e sua expulsão do colégio interno. É uma figura patética, pois sua expressão de alívio em relação ao desejo sexual, já que é agora castrado, se confunde com a própria amargura de ter renunciado ao mundo.
Glória, a filha casta, nutre um desejo incestuoso em relação ao pai, que compara com a figura de Jesus Cristo crucificado. Recusa-se a reconhecer tanto a hipocrisia paterna quanto a realidade cruel das relações familiares. Sua morte, assim como a morte de Edmundo, revelam que a idéia de família presente não corresponde às práticas cotidianas de violência e agressão.
Enfim, não quero contar a peça como um todo mas, a partir dessa singela descrição das personagens e de suas relações instigar o leitor do meu blog a ir assistir ao espetáculo e, ao se sensibilizar com a atuação brilhante dos atores, enxergar-se no patriarcalismo presente no palco, visto que o mesmo, como valor dominante da sociedade brasileira, impõem-se ainda no presente em uma dimensão disfarçada de liberdade e respeito à alteridade mas que, na verdade, transforma o espaço familiar urbano ou rural do Brasil atual em um palco de inquietudes e relações de poder e dominação que se antagonizam com um desejo idealizado de construção de uma sociedade mais justa e capaz de tornar as pessoas felizes.
Parabéns ao grupo "Os fofos encenam" pela coragem de, ao adaptar Nelson Rodrigues, produzir uma obra que no atual momento do contexto teatral brasileiro, passa a ser uma referência de dramaturgia e interpretação.